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A crise mundial e as consequências para o Brasil

A crise mundial e as consequências para o Brasil

A economia mundial mudou e o vento de calda que empurrou a economia brasileira por uma década também. Nesse cenário, o Brasil junta-se a outros países que, por bem ou por mal, passarão por ajustes em transações correntes e, face à isso, a questão fundamental é se a economia local está preparada para enfrentar os eventuais ventos de proa desse novo ambiente.

De fato, a última década não foi de toda perdida e o país aproveitou a bonança internacional para reduzir seu endividamento externo, enquanto o setor público melhorou sensivelmente o perfil de sua dívida. Em particular, o passivo em moeda estrangeira do país diminui, obstruindo a porta pela qual o refluxo de capital externo induziu a várias crises via ataques especulativos. O coroamento de tal esforço culminou com a obtenção do grau de investimento 2007, devidamente testado e aprovado na crise internacional de 2008/2009.

Infelizmente, os avanços pararam por aí, e desde então o país tem dado passos em direção contrária. Em particular, destaca-se o aumento da incerteza quanto à política econômica, bem como equívocos quanto a sua direção, levando a uma redução do crescimento potencial do país, agora exacerbada pela diminuição da poupança externa. Portanto, para dados déficit em transações correntes e uma política fiscal, é de se crer que as trajetórias da dívida externa/PIB e da dívida pública/PIB sejam hoje menos confortáveis, marcando uma deterioração do grau solvência do país.

Além disso, a fortaleza do setor financeiro, ainda que robusta, também já não é a mesma. Por um lado, o setor tornou-se mais concentrado e, portanto, mais suscetível ao too big to fail; e, por outro, o seu colchão contra choques é hoje menos espesso.  Com efeito, mesmo que a alavancagem do setor ainda seja reduzida, os ativos do fundo garantidor (FGC), antes composto primordialmente por títulos públicos, encontram-se agora totalmente correlacionados com o setor o qual pretende proteger. Ou seja, o cobertor do FGC está mais curto e, apesar das restrições legais quanto ao socorro de bancos privados pelo setor público, a probabilidade de que isso ocorra por força das circunstâncias hoje é maior, e os riscos de passivos soberanos contingentes, também.

O mercado está atento a essas mudanças, a despeito de seus aparentes exageros de otimistas e pessimistas. Por exemplo, algumas agências de risco já sinalizaram que podem rebaixar o rating soberano do país antes mesmo da próxima eleição presidencial. Junta-se a isso, o imobilismo da política econômica local e os eventuais ajustes na política monetária dos EUA, que, quando materializado, pode detonar uma mudança ainda mais forte e rápida na percepção do mercado quanto ao risco brasileiro. 

Infelizmente, não há como esperar que o país saia de sua letargia atual em um futuro próximo. O fato é que o governo perdeu o tempo político de ajustes quando de seu início, e os incentivos para isso são agora bem reduzidos. Quanto à política monetária americana, o Brasil vive o dilema de “o que é bom para eles, não é bom para nós”; pois, melhoras sensíveis no mercado de trabalho dos EUA promoverão significativas mudanças nas condições monetárias desse país, e, por conseguinte, dos preços dos ativos de países recebedores de fluxos de capital.

Dada essa alta exposição ao ciclo monetária internacional, é natural que a percepção quanto às trajetórias do câmbio e juros locais passem por momentos de esquizofrenia, onde os agentes ora precificam a calmaria eterna, ora o Armageddon imediato. Mas mesmo que a verdade se encontre em algum lugar entre esses dois extremos, o risco é que essa dinâmica bipolar mova abruptamente o mercado desde a leniência expressiva ao excesso de precaução, alternando momentos entre baixa e excessiva demanda por hedge financeiro, com consequências deletérias à economia real. 

De fato, o spread entre o cupom cambial de curto prazo e o custo de captação brasileiro em dólares no mercado americano é o bom termômetro para isso. Como mais uma vez verificado nos meses recentes, esse spread torna-se positivo em momentos de estresse, onde o excesso de cautela faz com que os agentes deixem de arbitrar aquilo que seria uma clara oportunidade de lucro em tempos de calmaria. Oportunamente, o Banco Central (BCB) interviu de forma decisiva no mercado futuro de câmbio, e, ajudado pela recente decisão do Fed, evitou um overshooting ainda maior da taxa de câmbio. De qualquer maneira, ficou claro que ainda não se passou o cadeado na porta de entrada das crises. 

Há, portanto, pelo menos duas lições a serem apreendidas dos episódios recentes. Primeiramente, o setor privado deve manter-se vigilante, apesar da recente alívio dado pelo Fed. As imperfeições no mercado de câmbio local persistem, e a despeito do volume das reservas internacionais, os riscos de que em tempo de estresse poucos tenham muito e muitos tenham pouco, ainda subexiste no mercado de câmbio. Assim, a leniência quanto à demanda por hegde deve ser combatida, evitando, por exemplo, esquecer que 2014 será um ano de eleições presidências, onde o imobilismo da política econômica poderá confrontar-se ao ajuste das condições monetárias internacionais. 

Em segundo lugar, fica claro que caberá ao BCB um papel central de estabilizador de última instancia, caso um cenário mais adverso se materialize até o final de 2014. Nesse sentido, é bastante ilustrativo que o BCB já tenha disponibilizado US$ 50 bilhões (ou aproximadamente 15%) das reservas internacionais para estabilizar o mercado de câmbio, somente durante os primeiros sinais (em falso) de mudança no ciclo monetário americano. Claramente, isso demonstra o tamanho dos possíveis desafios mais a frente, e que é altamente recomendável manter a liberdade do BCB na condução de suas decisões a partir de premissas técnicas.

Em suma, o cenário adiante pode torna-se ainda mais desafiador, mas, a despeito da piora dos fundamentos da economia brasileira, a estabilidade econômica ainda está exclusivamente nas mãos do setor público e privado brasileiros.

João Maurício Rosal é PhD em economia, consultor e atua no mercado financeiro.
Marcos Archina Weigt é MBA em Finanças e consultor em Risco de Mercado.

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